'Falar sobre a morte não poupa sofrimento, organiza o sofrimento': a entrevista da médica paliativista e escritora Ana Cláudia Quintana Arantes ao g1
A médica paliativista e escritora Ana Cláudia Quintana Arantes Divulgação Ela fala da morte sem baixar o tom, mas também sem endurecer a voz.
Médica paliativista, escritora do livro “A morte é um dia que vale a pena viver” e embaixadora da Voa Health, Ana Claudia Quintana Arantes não vê o tema como um desvio da vida, mas como uma das suas dimensões mais negligenciadas.
Ao longo de mais de duas décadas acompanhando pacientes com doenças graves, ela se acostumou a ver o que acontece quando esse assunto é evitado: decisões tomadas às pressas, sofrimento prolongado e despedidas atravessadas por dúvidas.
Não por falta de tecnologia ou de recursos médicos, mas por ausência de conversa.
No Brasil, essa lacuna também é estrutural.
Embora o país tenha avançado na formalização da política pública, o número de equipes habilitadas em cuidados paliativos ainda é reduzido frente à demanda de uma população que envelhece rapidamente.
A distância entre a norma e o acesso concreto ao cuidado segue evidente.
A realidade, ela diz, é que a maioria das pessoas não morre de forma súbita.
Morre doente —e, nesse percurso, precisa de cuidado. É nesse ponto que entram os cuidados paliativos, ainda frequentemente associados, de forma equivocada, à desistência ou ao fim iminente.
Nesta entrevista, a médica fala sobre o que define uma “boa morte”, critica a forma como a medicina lida com a finitude e defende que reconhecer o limite da vida pode ser, paradoxalmente, uma forma de vivê-la melhor.
Veja os vídeos que estão em alta no g1 g1: A senhora costuma dizer que a morte é um dia que vale a pena viver.
O que está sendo vivido nesse momento que ainda não entendemos?
Ana Cláudia Quintana Arantes: As pessoas não entendem que, para viver uma experiência que valha a pena, é preciso cuidado.
A maioria de nós vai morrer doente e, quando isso acontece, a gente precisa saber receber cuidado e ter quem saiba oferecer.
A morte vale a pena quando há esse encontro.
O que mais te incomoda na forma como a sociedade evita falar sobre a morte?
Quando você não fala sobre a morte, perde a chance de entender melhor o que fazer com o seu tempo.
Quando alguém sabe que tem pouco tempo de vida, aprende a priorizar.
E a prioridade não pode ser “estar vivo daqui a seis meses”, porque isso não é garantido.
Quem tem essa consciência costuma viver melhor.
Não porque a situação é fácil, mas porque passa a escolher com mais clareza o que viver.
Mas e quando o sofrimento emocional fala mais alto?
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